Mostrando postagens com marcador liberdade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador liberdade. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

No lámen mais antigo da Liberdade, a fila nunca acaba (e você vai esperar)

Em São Paulo desde 2000, Aska Lamen preza por receita tradicional, bom preço e rotatividade

O local é fácil de acessar: basta virar à direita e descer três quarteirões após sair do metrô Liberdade. O horário de funcionamento é cravado: de terça a domingo; no almoço começando às 11h e, no jantar, às 18h. Mas a verdade é que não importa como ou o quão cedo você vai chegar –as filas do Aska Lamen, a casa de lámen mais tradicional e antiga de São Paulo, vão sempre estar por lá.

É fácil distinguir se está no local certo: basta ver o apinhado de gente se formando na calçada, em frente ao toldo azul, no térreo de um prédio pichado. Um por um, os clientes chegam e vão deixando o nome na lista –a entrada, ali, é por ordem de chegada. A vez é anunciada via gogó pelo funcionário: "Luiz. Luiz. Luiiiz". E se Luiz não responde, perde a vez para José. Que antecede Maria, e por aí vai.

Os clientes, muitos habituês, parecem não se importar em esperar para comer alguma das receitas que vigoram há 23 anos no cardápio. "Antes ficava em pé. Agora, já venho preparada e não tem mais problema", relata Ana Santos, 54, que retirou da bolsa-sacola um banquinho portátil. Da mesma bolsa saiu o livro que ela lia tranquilamente enquanto aguardava o "Anaaa" ser entoado.

O cardápio do Aska, que pode ser acessado pelo celular enquanto se espera, também é enfático: "favor desocupar e ceder o seu lugar para o próximo cliente". Afinal, caldo fumegante, macarrão de produção caseira e empatia com o próximo da fila são os temperos do restaurante –que traz, além de tudo, o adicional de ter um dos preços mais atrativos da cidade (as tigelas custam em torno de R$ 30).

É claro que todo sucesso se deve também à tradição e à memória de Takeshi Ito, fundador da casa, que morreu em fevereiro, aos 80 anos. Discreto, não gostava de dar entrevistas, e falou uma única vez a Jo Takahashi, autor do livro "Ramen/Lámen".

A ele, Ito confessou que se mudou do Japão para o Brasil ainda jovem, mas que só após se aposentar concretizou o sonho de ter um restaurante. E que, "para não errar", copiou a receita do macarrão ensopado de um estágio que fez na terra natal. Arriscou abrir em São Paulo o restaurante de lámen –isso no começo dos anos 2000, quando o boom por aqui era de sushis, sashimis e seus correlatos.

A casa vingou e permanece disputada. A prova são as filas, o salão sempre cheio e os rostos avermelhados após sorver tigelas de missô, shoyu e shiô escaldantes (e divinamente temperados). Pinçados pelos hashis, fios de macarrão caseiro e fatias de carne de porco macia desaparecem no meio dos lábios.

E aí não importa o tempo de espera, o "coma e saia" do cardápio e nem o aviso carinhosamente chato do garçom (que, aos finais de semana, solicita que o pedido da cozinha seja realizado de uma vez, sem direito a repeteco, para agilizar o atendimento). Afinal, no lámen mais tradicional da Liberdade, a rotatividade é a chave.

Os clientes vão, mas eles voltam. Sem muitos rodeios.

*

Aska Lamen. Rua Galvão Bueno, 466, Liberdade. Terça a domingo, das 11h às 14h e das 18h às 21h. Fecha no último domingo do mês. Pagamento em dinheiro ou Pix.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Kidoairaku


Comida sem frescura
Panela velha é que faz comida boa
Parece esquisito comer hambúrguer em restaurante japonês, mas o do  é muito bom

Todo mundo gosta de descobrir novos lugares para comer. Mas, não raro, detetives culinários também têm seus dias de azar. Quantas vezes não achamos "aquele" lugar inédito, às vezes até recomendado por amigos, e nos decepcionamos?


Apelar aos velhos favoritos de sempre. Foi assim que retornamos ao Kidoairaku.

O Kidoairaku não tem uma fachada das mais vistosas. De fora, nada indica ser um dos melhores restaurantes japoneses da Liberdade.

Fica na esquina da São Joaquim com Galvão Bueno, esquina perigosa, devido à velocidade de motoboys alucinados que sobem zunindo a São Joaquim. Cuidado, portanto.

Quem vai pela primeira vez certamente se surpreenderá com a "recepção": ao entrar, você verá uma tiazinha japonesa sentada numa cama, assistindo TV. Se ela não estiver lá, você está no lugar errado.

A especialidade da casa são os teishokus. No Japão, o teishoku é o equivalente ao nosso "PF": uma refeição que traz várias porções de pratos tradicionais. Nenhum teishoku está completo sem o missoshiru (sopa), gohan (arroz) e o tsukemono (conservas).

O garçom sugere o teishoku de peixe prego no molho missô. Pedimos também o katsudon (porco empanado sobre arroz adocicado), muito bom. De entradas, berinjela grelhada no missô, uma das coisas mais deliciosas que já experimentei, e buta no kakuni (barriga de porco cozida).

Um dos teishokus mais pedidos do Kidoairaku é o de hambúrguer. Pode parecer esquisito comer hambúrguer em restaurante japonês, mas o de lá é muito bom.

Os especiais do dia ficam anunciados em papéis colados na parede. Não se acanhe em pedir ajuda ao garçom. Lá, diferentemente de alguns lugares esnobes por aí, os atendentes, de fato, atendem.

KIDOAIRAKU - R. São Joaquim, 394, Liberdade, SP, tel. 0/xx/11/3207-8569

Rua Tomaz Gonzaga, Liberdade


ANDRÉ BARCINSKI - Comida sem frescura - FSP, 28.03.2012

Na rua Tomás Gonzaga, no bairro da Liberdade, ficam, lado a lado, três dos meus endereços preferidos

SE HOUVESSE uma eleição da "calçada mais apetitosa" de São Paulo, eu votaria na da rua Tomás Gonzaga, no bairro da Liberdade.

Num espaço de um quarteirão, há pelo menos seis bons restaurantes orientais, servindo de sushi a "lamen", de "teishokus" a yakisobas.

Gosto especialmente do trecho entre os números 57 e 75, onde ficam, lado a lado, três restaurantes e bares muito bons, baratos e diferentes: o Kintarô, o Jardim Meio Hectare e o Porque Sim.

O Jardim Meio Hectare é um dos meus restaurantes chineses prediletos no bairro, com pratos que fogem do tradicional frango xadrez. Bem simples, tem sacos de alimentos empilhados no caminho do banheiro, mas a comida é fantástica.

O siri com alho é sensacional, assim como a rã frita e o macarrão branco. Aos mais ousados recomendo o intestino de porco frito.

Ao lado fica o Porque Sim, misto de karaokê com restaurante de "lamen", onde você pode soltar a voz em baladas sertanejas ou rocks enquanto saboreia "teishokus". O restaurante fica no térreo; os boxes, no karaokê, no andar de cima. Prove o "karê" (curry japonês).

Mas o melhor motivo para visitar a Tomás Gonzaga é mesmo o Kintarô, um boteco japonês que é sucesso entre os esfomeados da região.

De manhã, o Kintarô serve coxinhas e bolovos (ovo com carne moída) para os trabalhadores famintos da região central.

À noite, seu balcão pequeno fica lotado de estudantes tomando cerveja gelada e provando os petiscos japoneses expostos no balcão, como a moelinha de frango, o "nirá" com ovo, a manjuba frita, os "oniguiris" e a dobradinha. Os "chankos" (caldeiradas, pratos típicos dos lutadores de sumô) são ótimos.

Há algumas semanas, voltei ao Kintarô, que havia fechado por 30 dias para reforma. Um dos donos, Taka, distribuía doses de saquê para celebrar a reabertura.

A tal reforma, aparentemente, foi só no banheiro, porque a frente do lugar continua igualzinha. Ainda bem. Em time que está ganhando...